E se a natureza também fosse nossa professora?
Em seu capítulo Transdisciplinaridade: um caminhar da ciência com consciência, publicado em 2010, Adriano José Hertzog Vieira compartilha uma conversa com seu amigo moçambicano Antônio Braço. Durante uma caminhada pelas montanhas da serra gaúcha, Antônio olha para a Lua e diz: “Na África, ela era nossa professora”.
A afirmação desperta a curiosidade de Adriano, que lhe pede uma explicação. Antônio conta, então, como a natureza, em sua experiência cultural, oferecia ensinamentos sobre os ciclos da vida, os ritmos naturais e as relações entre os seres.
Em suas palavras, tudo na natureza educa e ensina. Aprender com ela é também aprender sobre si mesmo, reconhecer-se como parte do mundo e compreender que a vida tem seus próprios ritmos.
Essa narrativa nos convida a refletir sobre a ancestralidade e sobre as diferentes formas pelas quais o conhecimento humano se constitui e é transmitido entre gerações.
A ancestralidade como fonte de conhecimento
A ancestralidade nos conecta às memórias, aos conhecimentos, aos valores e às experiências que atravessam gerações. Ela está presente nas histórias contadas pelos mais velhos, na oralidade, nas práticas culturais, nos modos de cuidar, nas celebrações e nas relações estabelecidas com a natureza.
Em muitas culturas e comunidades, esses saberes integram dimensões da existência que, ao longo da história do pensamento ocidental, foram frequentemente separadas, como natureza, cultura, educação, saúde e espiritualidade.
A história compartilhada por Antônio Braço nos mostra uma maneira de compreender o conhecimento que não se limita aos espaços formais de aprendizagem. A observação da Lua, dos ventos, das chuvas e dos ciclos da terra também pode constituir uma experiência educativa, enraizada na convivência com o ambiente e na transmissão de conhecimentos acumulados ao longo do tempo.
Reconhecer esses saberes é ampliar nosso olhar sobre as fontes do conhecimento humano e valorizar contribuições de diferentes povos e culturas, muitas vezes silenciadas ou deslegitimadas por processos históricos de colonização.
Isso não significa idealizar o passado, mas reconhecer que a ancestralidade permanece viva, dinâmica e capaz de dialogar com as questões do presente e os desafios do futuro.
Onde a ancestralidade encontra a transdisciplinaridade?
A transdisciplinaridade propõe uma compreensão da realidade que ultrapassa as fronteiras das disciplinas e favorece o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento e modos de saber.
Como destaca Adriano José Hertzog Vieira em seu artigo, embora a transdisciplinaridade tenha ganhado formulação própria no pensamento contemporâneo, uma compreensão integrada da existência pode ser reconhecida nas origens do conhecimento humano.
A narrativa de Antônio Braço ilustra essa perspectiva. Nela, observar a Lua não é apenas um exercício de contemplação: é uma experiência que reúne natureza, cultura, memória, observação e aprendizagem. O conhecimento se constrói na relação entre o ser humano e o mundo do qual faz parte.
A transdisciplinaridade nos convida, assim, a reconhecer que a realidade é complexa e que sua compreensão pode se ampliar quando diferentes perspectivas dialogam. Não se trata de substituir um conhecimento por outro, nem de reunir indiscriminadamente todas as formas de saber, mas de criar condições para encontros respeitosos, atentos às origens, aos contextos e às especificidades de cada conhecimento.
Essa aproximação também nos provoca a questionar a ideia de que somente o conhecimento produzido nos espaços acadêmicos ou científicos pode contribuir para compreender a vida. Os saberes ancestrais, as experiências comunitárias, a arte, a filosofia e outras formas de conhecimento podem ampliar nossas perguntas, enriquecer nossas práticas e abrir novas possibilidades de compreensão.
Aprender com a vida, cuidar do futuro
Em um mundo marcado por desafios socioambientais e por relações cada vez mais complexas, recuperar a capacidade de aprender com a natureza e com os saberes transmitidos entre gerações ganha especial relevância.
A ancestralidade pode nos ajudar a reconhecer a importância dos vínculos comunitários, dos ritmos naturais e da responsabilidade compartilhada pelo cuidado com a vida. A transdisciplinaridade, por sua vez, favorece o diálogo entre diferentes perspectivas, ampliando nossa capacidade de compreender os desafios contemporâneos e buscar respostas que considerem a complexidade da existência.
Talvez uma das perguntas que a história de Antônio nos deixa seja justamente esta: o que a vida tem nos ensinado e quanto estamos disponíveis para aprender?
Escutar os saberes ancestrais, dialogar entre diferentes conhecimentos e reconhecer nossa interdependência com a natureza são possibilidades de ampliar a consciência sobre quem somos e sobre a maneira como habitamos o mundo.
Somos herdeiros de muitos saberes e também responsáveis por aquilo que transmitiremos às próximas gerações.
Unipaz: transdisciplinaridade na prática
A Unipaz tem na transdisciplinaridade um de seus fundamentos. Como ecossistema dedicado à promoção da Cultura de Paz, articula conhecimentos, experiências e práticas voltados ao desenvolvimento integral do ser humano, à convivência e ao cuidado com a vida.
Essa perspectiva se expressa em suas propostas educativas e formativas, que favorecem o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento e dimensões da experiência humana. A transdisciplinaridade, nesse contexto, não se limita a um conceito a ser estudado: é uma abordagem que orienta a aprendizagem, as relações e a busca por uma compreensão mais ampla da realidade.
Ao reconhecer a contribuição de diferentes saberes e favorecer seu diálogo, a Unipaz participa da construção de uma cultura de aprendizagem que valoriza a inteireza humana, a diversidade e a responsabilidade compartilhada pela vida.
Aprender com a vida é reconhecer que o conhecimento se constrói de muitas maneiras, atravessa gerações e se amplia no encontro com o outro e com a natureza. Talvez seja essa uma das contribuições mais preciosas da aproximação entre transdisciplinaridade e ancestralidade.
Referência
VIEIRA, Adriano José Hertzog. Transdisciplinaridade: um caminhar da ciência com consciência. In: MORAES, Maria Cândida; NAVAS, Juan Miguel Batalloso (org.). Complexidade e transdisciplinaridade em educação: teoria e prática docente. Rio de Janeiro: WAK Editora, 2010. p. 227–245.

Nelma da Silva é Facilitadora, Educadora, Pedagoga e Administradora de Empresas. Coach em Processos de Transformação Profissional, com MBA em Dinâmica Organizacional, Gestão e Ambiente de Trabalho. Possui pós-graduação em Transdisciplinaridade e Desenvolvimento Integral do Ser Humano e em Psicologia Transpessoal. Tem ampla experiência em organizações privadas, com atuação focada na implantação de projetos e no desenvolvimento de equipes e lideranças.
É cofundadora, presidente e coordenadora pedagógica da Unipaz São Paulo, além de vice-reitora da Universidade Internacional da Paz.
Facilitadora dos programas Eneagrama, Autogestão, Educação Ambiental e A Arte de Viver a Vida, de Pierre Weil.
