Em diferentes épocas da humanidade, homens e mulheres dedicaram suas vidas à arte de cuidar. Mudaram as técnicas, ampliaram-se os conhecimentos, transformaram-se as formas de compreender o ser humano. Mas permanece uma pergunta essencial:
O que significa, de fato, ser terapeuta?
Em sua palestra sobre os antigos e novos terapeutas, Roberto Crema convida-nos a revisitar essa pergunta a partir das raízes da tradição terapêutica ocidental, revelando uma compreensão do cuidado que continua profundamente atual.
Muito além da doença
Na visão contemporânea, frequentemente associamos o terapeuta ao tratamento das enfermidades. Entretanto, na tradição apresentada por Filon de Alexandria, o terapeuta não é compreendido como alguém que cura pessoas.
Quem cura é a própria vida.
O terapeuta é aquele que facilita as condições para que as forças curativas e saudáveis presentes em cada ser humano possam se manifestar. Sua tarefa consiste em cuidar da saúde, fortalecendo aquilo que permanece íntegro, vivo e essencial em cada pessoa.
Essa mudança de perspectiva é profunda.
Em vez de colocar a doença no centro da atenção, o cuidado volta-se para o potencial de saúde e para a capacidade humana de florescer. A saúde deixa de ser apenas ausência de sintomas para tornar-se um caminho em direção à plenitude.
Cuidar começa pela escuta
Para essa tradição, o primeiro gesto terapêutico não é falar.
É escutar.
Escutar não apenas as palavras, mas também os silêncios, os gestos, as emoções e os sintomas.
Roberto Crema utiliza uma imagem bastante significativa: o sintoma é como um telefone que toca. Não surge para ser imediatamente silenciado, mas para comunicar algo importante.
Quando apenas buscamos eliminar o sintoma, corremos o risco de desligar o alarme sem compreender a mensagem que ele procura transmitir.
Escutar, portanto, é reconhecer que toda crise pode carregar um convite à transformação.
A arte de interpretar
Escutar também significa interpretar.
O terapeuta é um hermeneuta: alguém que busca sentidos, sem reduzir a experiência humana a uma única explicação.
Essa postura dialoga profundamente com a transdisciplinaridade, um dos pilares da UNIPAZ.
Nenhum fenômeno humano pode ser plenamente compreendido por apenas um campo do conhecimento. Ciência, filosofia, arte e espiritualidade deixam de competir entre si e passam a dialogar, oferecendo uma compreensão mais ampla da realidade e do ser humano.
A ética da bênção
Talvez um dos aspectos mais inspiradores da palestra seja a recuperação daquilo que Roberto Crema chama de ética da bênção.
Abençoar significa “bem olhar” e “bem dizer”.
É reconhecer, antes das limitações, aquilo que existe de mais verdadeiro e potente no outro.
Em uma cultura acostumada a enfatizar diagnósticos, rótulos e deficiências, essa proposta representa uma mudança radical de olhar.
Ninguém “é” a sua doença.
As pessoas atravessam processos, mas conservam uma dignidade que permanece intacta.
Quando o terapeuta enxerga o sujeito antes do sintoma, cria-se um espaço onde a própria vida pode reorganizar seus processos de cura e desenvolvimento.
O poder transformador do encontro
Outro tema central da palestra é o encontro.
Segundo Roberto Crema, ninguém transforma ninguém.
Ninguém cura ninguém.
As transformações acontecem no encontro.
Encontro consigo mesmo.
Com o outro.
Com a natureza.
E com o mistério da existência.
Essa compreensão aproxima cuidado e presença. Mais do que aplicar técnicas, o terapeuta oferece qualidade de presença, criando um espaço onde a pessoa pode reencontrar sua própria inteireza.
Como o próprio autor afirma em outro momento de sua trajetória, o encontro é a origem do cuidado. Sem encontro, não há cuidado verdadeiro.
Todos podemos ser terapeutas
Ao final da palestra, Roberto Crema amplia ainda mais esse conceito.
Existem, naturalmente, os terapeutas clínicos.
Mas também existem educadores terapeutas, arquitetos terapeutas, engenheiros terapeutas, ecólogos terapeutas, líderes terapeutas e tantas outras formas de exercer o cuidado.
Em um planeta marcado por crises ambientais, sociais e humanas, cuidar deixa de ser responsabilidade exclusiva das profissões da saúde.
Passa a ser uma vocação compartilhada.
Cada pessoa, em seu campo de atuação, pode contribuir para restaurar vínculos, fortalecer a saúde e cultivar uma Cultura de Paz.
Um chamado para o século XXI
Desde sua origem, a UNIPAZ compreende que o desenvolvimento humano acontece na integração entre ciência, filosofia, arte e espiritualidade.
A visão apresentada por Roberto Crema reafirma esse propósito e nos recorda que formar terapeutas é, antes de tudo, formar seres humanos capazes de cuidar da vida em sua totalidade.
Mais do que aprender técnicas, trata-se de desenvolver uma presença que escuta, interpreta, acolhe, abençoa e favorece o florescimento daquilo que existe de mais saudável em cada pessoa.
Em um mundo marcado pela fragmentação, talvez esta seja uma das contribuições mais importantes da abordagem transdisciplinar: recordar que a cura não nasce do controle, mas do encontro; não pertence ao terapeuta, mas à própria vida.
E ao terapeuta cabe a bela missão de caminhar ao lado, facilitando as condições para que essa vida possa manifestar toda a sua potência.
Em tempos de tantas crises, talvez o maior desafio dos terapeutas do século XXI não seja aprender novas técnicas, mas redescobrir a arte de cuidar do ser humano em sua inteireza. Um cuidado que nasce da presença, da escuta, do encontro e da confiança de que a própria vida possui, em si mesma, um profundo impulso de cura e de plenitude.
Este artigo foi elaborado a partir da palestra “Antigos e Novos Terapeutas: abordagem transdisciplinar em terapia”, proferida por Roberto Crema a convite de Plinio Cutait, no âmbito do Núcleo de Cuidados Integrativos do Hospital Sírio-Libanês. As reflexões aqui apresentadas constituem uma síntese inspirada nos principais conceitos compartilhados pelo autor durante esse encontro.

Nelma da Silva é Facilitadora, Educadora, Pedagoga e Administradora de Empresas. Coach em Processos de Transformação Profissional, com MBA em Dinâmica Organizacional, Gestão e Ambiente de Trabalho. Possui pós-graduação em Transdisciplinaridade e Desenvolvimento Integral do Ser Humano e em Psicologia Transpessoal. Tem ampla experiência em organizações privadas, com atuação focada na implantação de projetos e no desenvolvimento de equipes e lideranças.
É cofundadora, presidente e coordenadora pedagógica da Unipaz São Paulo, além de vice-reitora da Universidade Internacional da Paz.
Facilitadora dos programas Eneagrama, Autogestão, Educação Ambiental e A Arte de Viver a Vida, de Pierre Weil.
